O fim da publicidade

por Luis Alt | 29 11 2012

Imagine por um momento que o titulo deste texto é verdade. Que no ano de 2013 o governo aprove uma lei que impossibilite a criação de toda e qualquer mensagem de interrupção. Em outras palavras, que nada, e muito menos alguma marca, possa interromper ou interferir em nossas atividades. Não mais comerciais enquanto vemos um filme na televisão, anúncios enquanto lemos um artigo na internet ou banners em espaços públicos.

Em Janeiro de 2007, o então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, decidiu banir das ruas outdoors que contaminavam visualmente a cidade com seu projeto ‘Cidade Limpa’. Decisão brilhante, nos deu olhos para enxergar pela primeira vez prédios, museus e parques que estavam por trás dos grandes paineis. E o que aconteceria se eliminássemos completamente toda outra forma de divulgação? Será que teríamos mesmo uma vida mais simples, bonita, fluida e livre de distrações ou nos encontraríamos em uma situação de desespero e falta de referência?

Quem mora em São Paulo já se acostumou a ver os prédios e não banners e outdoors …

Imagino que em um primeiro momento todo um sistema de empresas cairia. Modelos de negócio e setores inteiros seriam obrigados a se reinventarem, procurar novas alternativas para permanecer relevantes ou vender seus serviços. Consumidores, por outro lado, teriam que buscar as informações por si só sobre quais empresas estão disponíveis para suprir suas necessidades utilizando guias de empresas, sites especializados e círculos de pessoas conhecidas. O fator determinante para a escolha de um fornecedor tornaria-se, oficialmente, não mais o que as empresas bombardeiam nas mídias, mas como elas são em realidade.

Claro que todo um setor que trabalha com mensagens publicitárias não ficaria parado e logo surgiriam novas alternativas para colocar as marcas na cabeça dos consumidores sem que sejam consideradas interrupções. Fronteiras nebulosas como a aparição de produtos e serviços dentro do conteúdo principal, como inserções de merchandising em novelas se tornaria mais comum e caberia aos criadores desse conteúdo se vender ou proteger seu conteúdo. Seria um grande dilema. Mas como sustentar a operação? Como um jornal ou uma emissora de televisão sobreviveria dentro dessa nova realidade? Talvez cobrando pelo conteúdo, como deveria ter sido sempre …

Enquanto isso, publicitários trabalhando em novas formas de aparecer, criariam o conceito de patrocínio de “pessoas normais”, identificando influenciadores em determinados segmentos e os entulhando de dinheiro e marcas, fazendo que estes espalhem a mensagem. Até que muitos se afastem deles ou vejam que já não se divertem tanto em sua presença. E novas proibições para inibirem esse tipo de ação surgiriam, impedindo o patrocínio empresa-pessoa.

Poster do filme ‘Amor por Contrato’ (The Joneses) onde Demi Moore e David Duchovny lideram uma família de mentira, criada apenas para influenciar seus círculos de convivência para que comprem produtos.

Restaria então às empresas um só caminho: ter um bom produto ou serviço, de verdade, e atender bem os seus clientes. Pois estes, mesmo sem serem pagos, serão os responsáveis por espalhar a mensagem. Ao invés de gastar milhões para fazer promessas, agora o foco será a experiência. Chega de falar, está na hora de fazer.

Agora saiba que essa realidade, mesmo sem uma lei, pouco a pouco se tornará real. As pessoas não vão mais acreditar no que as marcas falam delas mesmo e as empresas que forem inteligentes vão cada vez mais concentrar seus investimentos na criação e sustentação de uma operação que encante e seja fiel com seus clientes atuais, pois saberão que, cada vez mais, estes serão seus maiores agentes de venda.

Claro que essa é só uma hipótese, o início de um raciocínio. E vocês, o que acham que poderia acontecer caso a publicidade fosse banida?

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Comentários: 7

  1. Ricardo Carvalho
    1 Dec 2012 13:15

    Eu acho que a lei Cidade Limpa funciona em partes. Acredito que ela seria mais eficiente se o governo também fizesse a parte dele. Por exemplo: eu acho que em São Paulo, o caos visual é muito mais formado pelos fios da rede elétrica nas ruas do que pelas propagandas. Mas parece que obrigar as empresas a parar de anunciar em outdoors e deixar a fachada mais limpa foi uma solução mais barata para o governo. Como diz no texto, as soluções arranjadas para isso foram rápidas, me lembro agora do “envelopamento” que Tok Stok e Telhanorte, por exemplo aqui em São Paulo, passaram a usar nas lojas o uso de grafismos para compensar o menor espaço da publicidade.

    Mas acredito que se numa hipótese isso acontecesse, a tendência é mesmo que a relação de confiança através de amizades, etc se torne o maior espelho para uma reputação e imagem das marcas. (se já não é o maior espelho)

    • Luis Alt
      19 Dec 2012 17:48

      Ricardo, concordo plenamente! Se tem algo que me incomoda são os fios da rede elétrica. Não consigo entender como reformamos ruas e deixamos os postes lá (isso aconteceu recentemente no Itaim). É um contra-senso! Valeu pela contribuição e um grande abraço! Luis.

  2. Luis Santos
    5 Dec 2012 14:11

    Achei que foi mais um artigo alarmistra seguindo a linha do Fim da História, do Fukuyama. Não haverá fim da HIstória, nem fim da Publicidade, nem fim de coisa alguma. Transformações e modificações, bem como novas teorias do fim de-não-sei-o-que, continuaram com força total.

    • Luis Alt
      19 Dec 2012 17:47

      Oi Luis, assim como acabo de comentar ao Bruno, minha ideia não era fazer alarme sobre nada e sim levantar a importância de não esquecer a experiência dos consumidores, que no fundo é o eixo central de uma empresa. Vejamos como as transformações se darão no futuro próximo, mas posso garantir que sobreviverão as empresas que se atentarem para essa questão de total importância: não apenas vender, mas ser … Ou quantas empresas você conhece que realmente entregam a experiência que prometem na TV?

  3. Bruno
    19 Dec 2012 17:39

    Já li textos apocalípticos melhores, isso remonta o que diziam quando surgiu o rádio, que iria acabar com o jornal impresso, e quando surgiu a tv iria destruir o rádio. Esse papo é velho de mais.

    • Luis Alt
      19 Dec 2012 17:44

      Bruno, não se trata de um texto apocalíptico mas sim um exercício de reflexão. Minha ideia não foi profetizar e muito menos ser um poeta na hora de escolher minhas palavras. Também não procurei criar um clima de terror, como um texto apocalíptico poderia sugerir. Meu único papel foi trazer à tona e mostrar que em um mundo onde tudo o que as empresas preocupam-se em fazer é comunicar para gerar demanda, o fundamental está caindo no esquecimento, que é a experiência do consumidor. O que na verdade, com a internet e um mundo cada vez mais conectado, torna-se cada vez mais evidente e importante. Esperava um comentário ou argumento mais interessante vindo de alguém que veio com o único propósito atacar meu texto …

  4. Aryane Teixeira
    29 Jul 2014 10:15

    Ótimo texto, ao mesmo tempo que nos faz refletir sobre como seria um mundo sem publicidade e mais outra reflexão sobre como convivemos diariamente com ela, também me faz temer o fato de ficar sem emprego. HAHAHAHAHAHAH
    Brincadeiras a parte, a questão do convívio diário da publicidade deixou de ser sutil a muito tempo, a teoria da manipulação, atualmente, já nem existe mais. Mas será que a publicidade está perdendo terreno ou ganhando mais espaço? Mesmo com as ações offlines, será que a publicidade perdeu (ou está perdendo) espaço para novas ferramentas? Bom, gostaria de uma opinião sua.
    Obrigada. ;)

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