O salto de fé

O Salto de Fé

Navegar na complexidade de projetos de inovação não é tarefa fácil. O maior problema é que quando procuramos criar algo novo e surpreendente, não sabemos no início qual será o resultado no final. O que escrevo parece algo simples e óbvio, mas a verdade é que não é. Se você, ao iniciar um projeto, sabe exatamente qual será seu resultado final, pode acreditar, ele não terá o impacto que está procurando e seu processo será inútil, pois você o tentará viciar para alcançar exatamente o que está querendo desde o começo.

Projetos de Design Gráfico ou até mesmo de Design de Produto deveriam utilizar a abordagem do Design Thinking, porém isso não é o que temos visto por onde passamos. Designers de produto até fazem pesquisa com usuários mas mais por aspectos ergonômicos e estéticos do que para entender exatamente como sua solução se encaixará na vida dessas pessoas. A prototipagem, quando acontece, é somente em estágios finais, para teste de conceito e avaliação estética, aprovação por parte da diretoria e desenvolvimento final dos engenheiros. Colaboração entre designer, usuário e cliente então é algo inexistente e essas pessoas, quando envolvidas, servem apenas de cobaias em focus groups que acontecem já nos estágios finais de validação e ajuste fino das ideias. Isso em um momento que já se gastou muito dinheiro e é tarde demais para voltar atrás… (Por favor, gostaria muito de ser corrigido neste aspecto e que me mostrem exemplos de projetos que me desmintam.)

Qualquer projeto, de qualquer área, conduzido por qualquer pessoa, deveria se abrir à possibilidade de navegar um pouco mais em águas de incerteza. Essa incerteza, desde que bem conduzida, aumentará seu nível de ansiedade durante mas garante grandes resultados ao final do projeto. Dê-se um tempo para conversar mais com os usuários, entender seus comportamentos e contexto de vida. Faça o mesmo com as pessoas que estarão associadas à entrega desse produto ou serviço que você está projetando e veja como elas podem ajudar você. Sei que não é tarefa fácil, mas um bom designer hoje não é um gênio que trabalha a portas fechadas e sim um profissional que consegue extrair de outras pessoas informações relevantes, as quais são conduzidas e processadas ao longo de uma controlada jornada caótica onde a complexidade dá lugar à simplicidade através de soluções relevantes.

Designers estão acostumados com grande parte desse processo, mas vejo que ainda falta o passo final: entender que eles estão ali para conduzir e dar sentido à informação adquirida com outros e estarem mais abertos a ter várias pessoas o ajudando em projetos. Se você fica preso em seu mundo, é bem provável que suas soluções não estejam alcançado todo seu potencial. Acredite no poder da empatia, colaboração e experimentação … no começo o salto de fé é grande mas os resultados lhe provarão que vale a pena viver e trabalhar assim.

Sócio-diretor da live|work, consultoria global de inovação e design de
serviços com projetos para grandes marcas como Itaú, Johnson & Johnson
e Sony. É também cofundador do primeiro curso de Design Thinking da
América Latina na ESPM em São Paulo. Formado em Engenharia de Produção
e Design de Produto, possui um master em Gestão de Design no Istituto
Europeo di Design (IED) em Barcelona. É autor do livro Design Thinking
Brasil junto com seu sócio Tennyson Pinheiro (Ed. Campus-Elsevier).
  • Caro Luis,

    Concordo contigo em uma visão geral, entretanto, devo alertar que o “verdadeiro designer” nunca projeta (seja produtos ou serviços) dentro do seu próprio mundo. Se o faz, não és um designer! e nesse sentido, nem pode ser classificado como. Sei que tu sabes disso, mas é somente para esclarecer aos leitores que por ventura possam passar por aqui desavisados.

    Um forte abraço!

  • Eduardo

    Perfeito o post Luis!

  • Achei muito interessante o texto!

  • Eu gosto muito de design e pretendo trabalhar com isso, em breve estarei tendo que escolher qual curso fazer e quais ramos seguir.

    Esse texto esclareceu alguns conceitos super errados que eu tinha sobre a forma de trabalhar, me fez mudar de ideia em alguns aspectos.

    Ótimo blog! Vou visitar sempre que possível 😀

    Abraço!

  • Luis,

    Sou recém-graduado e a abordagem que tive durante todo meu curso é exatamente esta que você critica no texto. E por conta desta carência, na última semana venho pesquisando “design thinking” [li textos, assisti TEDtalks e afins] mas ainda tenho uma certa dificuldade de entender os processos dessa abordagem no design gráfico [programação visual], adoraria ver isso elucidado em seus próximos texto.

    Obrigado e parábens pelos posts.