Neue Haas Grotesk

Neue Haas Grotesk

Prefácio

Jorge Luís Borges, no prefácio de um de seus livros de poesia, comenta que todas as poesias desse livro são uma releitura de poesias consagradas. Borges é um exemplo de como a literatura é feita do que foi escrito no passado e de adaptações e reinterpretações daquilo que já foi escrito.

Ironicamente, o type design, que é tão importante ao texto quanto a literatura, não só permite como vive de releituras de famílias tipográficas consagradas e da pesquisa daquilo que os type designers e caligráfos fizeram no passado.

O tipo analisado logo abaixo é um dessas releituras, um tipo clássico e renomado que praticamente define um estilo e, mesmo que muitos odeiem, é de extrema relevância e muito dificilmente deixará de ser.

Um pouquinho de história

Na década de 1950 a fundidora suíça Haas vinha perdendo mercado de sua sans-serif grotesca para a popular Akzidenz-Grotesk, da Berthold. Pra não ficar pra trás, Eduard Hoffmann, presidente da Haas, deu para Max Miedinger, vendedor e designer da Haas, a tarefa de desenhar uma nova grotesca, surge daí a Neue Haas Grotesk.

Pra garantir o sucesso global de vendas, era imprecindível que a fonte fosse adaptada para composição industrial. Em 1959 Hoffmann faz um acordo com a fundidora D.Stempel AG para adaptar a Neue Haas Grotesk para Linotipo, abrindo assim seu alcance no mercado.

Heinz Eul, gerente de vendas da Stempel, acreditava que a Neue Haas Grotesk tinha tudo para ser um sucesso internacional e sugeriu que o nome da família tipográfica fosse mudada para Helvetia que é a palavra latina para Suíça. Hoffmann contrapropôs o nome Helvetica que significa “o suíço”. Surge então um tipo que não sairia mais da nossa visão.

Com o avanço da tecnologia mudanças foram feitas na Helvetica para que se adaptasse as diferentes modalidades de arranjo tipográfico. Dessas mudanças alguns sacrifícios tornaram a Helvetica um tipo apático, sem graça, cru, feio e muito inadequado. Como era uma fonte muito requisitada, logo foi digitalizada pela Linotype, porém, esse digitalização foi feita em cima dos sistemas analágicos que já tinham sofrido mudanças drásticas do tipo original projeto para o arranjo manual.

Em 2004, Christian Shwartz foi contratado pelo Guardian pra redesenhar a Neue Haas Grotesk pra ser usada no jornal impresso. O tipo acabou sendo rejeitado e Shwartz, apesar de querer terminar a família, precisava de um estímulo pra continuar, já que, segundo ele, “as itálicas das sem-serifa (na verdade oblíquas corrigidas) são incrivelmente tediosas de se desenhar”. No fim das contas, um dos caras que trabalhava no Guardian enquanto Schwartz redesenhava a Neue Haas Grotesk, Richard Turley, virou o novo diretor de criação da Bloomberg Business Week que estava sendo reativada. Turley deu uma nova chance pra Neue Haas Grotesk e Schwartz não tinha mais desculpa pra não terminar as tediosas itálicas.

Em 2011, terminada a família, surge para varejo esse baita projeto de type design, a Neue Haas Grotesk digital, uma versão mais fiel as características da Helvetica original.

Mais uma Helvetica?

Neue Haas Grotesk, como diz o nome é uma grotesca. As grotescas são fontes com boa altura-x, formas e traço bem racional (com quase nenhum resquício da caligrafia), com caracteres largos e fechados e com uma forte horizontalidade. São a marca do estilo moderno e até hoje são muito usadas pela suposta austeridade e imparcialidade.

Talvez não faça muito sentido propor uma nova Helvetica, mas, além de muito type designer curtir fazer releituras, deve vender bem, porque não são poucas as grotescas que existem no mercado. Além das tradicionais Univers, Frutiger, Arial de vez em quando aparece uma nova como a Aktiv Grotesk, fonte de Bruno Maag que teve a mão do brasileiro Fábio Haag no seu desenho. E, como diz Mathew Butterick em seu comentário a Neue Haas Grotesk no site Typographica: “(…) ame ou odeie, Helvetica vai ser parte da nossa cultura visual pelo que podemos ver do futuro. Então, se tenho que ficar olhando Helvetica por mais 50 anos, prefiro olhar a melhor versão dela disponível.”

Neue Haas Grotesk propriamente dita

Não vou me atentar as melhoras em relação a Helvetica e a Neue Helvetica digital que é vendida pela Linotype, a Font Bureau fez um site só pra isso, mas vou trazer as características da Neue Haas Grotesk que me chamam atenção.

Primeiro, essa família tem estilos ópticos. Caso não saiba, quando os tipos eram arranjados de forma analógica, cada tamanho era uma fonte diferente, então quando você comprava a Helvetica Bold, você comprava ela num tamanho específico, tipo Helvetica Bold 36pt. Com a tecnologia digital as fontes foram sendo adaptadas para serem escaladas ou diminuídas indefinidamente comprometendo o desenho e gerando fontes ruins que na verdade não serviam pra todos os tamanhos. Neue Haas Grotesk é dividida em duas sub-famílias desenhadas para tamanhos específicos, a Text, obviamente para textos, e a Display, para títulos.

A Text é vendida nos estilos Roman, Italic, Bold, Bold Italic, Medium & Medium Italic.

A Display abarca uma variedade muito mais se subdividindo em 9 pesos, indo do ultra-thin ao Black cada peso acompanhado de sua itálica.

As itálicas, apesar de parecerem somente oblíquas (a versão romana entortada 12˚, como é caso da Helvetica instalada nos Macs), teve suas curvas adaptadas pra manter a fluidez do desenho, um traço uniforme no decorrer da fonte e uma maior harmonia.

Como no tipo original, Neue Haas Grotesk vem com o R de perna reta como caractere alternativo. Na sub-família display o estão disponíveis dois a’s minúsculos, um com e outro sem a perninha.

Recursos opentype foram adicionados como números tabulares, frações, numeradores e denominadores, pontuação sensível às capitalures.

Pra fechar o Character Set (os caracteres disponíveis) foi expandido pra atender muito mais línguas.

Mas ela é cara pacas!

No total, se for comprar a família inteira, sai um pouco mais que US$800, mas por estilo ela sai US$54, que é a média de preço de uma fonte.  Dificilmente você vai ter um projeto cuja complexidade exija tantos estilos assim e se exige, tome vergonha na cara, porque um projeto desse é coisa de quem paga por design, uns 1000 dólares não  vão fazer tanta diferença assim no custo do projeto e, no fim das contas, fontes sempre são um baita investimento.

Se for pra comprar a Helvetica (ou pra comprar os outros pesos da família além dos que já vem na sua máquina) peço que leve em consideração a Neue Haas Grotesk. Uma comparação básica mostra um refinamento que vai fazer diferença no resultado da sua peça visual. Eu, que não gosto muito da Helvetica, até considero o uso da Neue Haas Grotesk para textos, e as versões display são uma coisa linda, sem aquele desajeito que a Helvetica atual tem. O refinamento é sutil, é coisa de detalhes, mas como tudo na tipografia, são esses pequenos detalhes que fazem a diferença, são essas curvas corrigidas que garantem uma melhor leiturabilidade, é esse calor sutil das formas que irão saltar nas peças visuais que você aplicar a Neue Haas Grotesk.

Cito de novo a frase de Butterick, “se tenho que ficar olhando Helvetica por mais 50 anos, prefiro olhar a melhor versão dela disponível.”

Aliás, conheçam o projeto Typetip e o Facebook onde postamos diariamente ótimas fontes free e/ou com preço acessível.

Neue Haas Grotesk

Designer: Christian Shwartz
Foundry: Linotype / Font Bureau
Estilos: Text: de roman até bold + italics | Display: ultrathin até black + italics
Opentype: Contextual alternates, standard ligatures, case sensitive forms, frações, numeradores, denominadores e números científicos.

Preço:US$54 por estilo(US$831,60 a família)

A venda na Linotype, Font Bureau & MyFonts.

Casado com uma linda mulher, pai de uma bela menina, designer de profissão, blogueiro por força do destino, entusiasta tipógrafico por maldição dos deuses, péssimo cristão e sempre disposto a escrever. Trabalha num pequeno escritório familiar numa pequena cidade no pequeno estado ds Santa e bela Catarina. Aceita um café e livros como presentes.