Um passo para trás

Sou fanático por duas coisas em São Paulo: a quantidade de ótimos restaurantes que temos a nossa disposição e a facilidade para se ter qualquer tipo de compra entregue em sua casa, o famoso delivery.

De todos os restaurantes da cidade, provavelmente o meu preferido para pedir em casa seja o Ritz, com unidades nos Jardins, Itaim e Shopping Iguatemi. De hamburgers a massas, existe sempre um prato lá para satisfazer a vontade do momento. De fato, na minha escolha pessoal em 2011, é de lá que saiu o “prato do ano”, um atum grelhado com arroz oriental. Simplesmente sensacional! Volta e meia peço pratos do Ritz, em uma jornada fantástica: o atendimento é ótimo, o pagamento pode ser feito por cartão direto com a telefonista, a entrega é rápida e os pratos chegam quentes e bem embalados em casa. Raramente existe um erro durante o processo, sendo que até mesmo hamburgers chegam perfeitamente montados, resistindo ao transporte graças a sua embalagem especial.


• O restaurante da Alameda Franca, Jardins • 

Tudo perfeito? Na verdade não. A cada pedido, não deixa de me incomodar a quantidade de lixo que é gerado graças a uma simples refeição. Sacolas de papel para colocar o pedido dentro, bandejas de plástico separadas para cada elemento da comida, guardanapos, desnecessários sachês de sal e queijo ralado, sacos para embalar as latinhas de refrigerante, é lixo que não acaba mais! Tudo isso para satisfazer uma necessidade de refeição. O sentimento é de culpa.

Nosso papel, como designers, no entanto, é analisar o todo e não apenas o objeto em si, e utilizarei esse ‘paradigma da sustentabilidade’ para explicar meu ponto. É verdade, muito desperdício é gerado para que eu possa comer, com amigos, um jantar do Ritz em minha casa. Mas vamos enxergar por outro lado: quanto tempo todos nós não economizamos ao deixar de ir até o restaurante? Tempo que pode ser utilizado para estar mais junto aos amigos, para conversar mais. Ao invés de ter 4 pessoas se deslocando até o local (as vezes em carros separados), ter apenas uma pessoa fazendo a entrega evita a queima de quanto monóxido de carbono? Principalmente se a entrega for feita de bicicleta e não com uma moto velha… Consideremos também a equipe de atendimento necessária para fazer o serviço acontecer no restaurante: serviço de estacionamento, recepção e garçons. Eles também se deslocaram para chegar ao trabalho e são responsáveis por gerar lixo e/ou roupa para lavar caso eu tivesse ido ao restaurante, mas não necessariamente participam da jornada no modelo ‘delivery’.


•  O que sobrou do meu pedido … • 

Fica muito difícil saber qual das duas opções é menos sustentável, porém ao analisarmos o sistema como um todo rapidamente conseguimos achar elementos que não tornam tão absurda assim a minha opção pela comida em casa. Não quero sequer determinar qual das duas é melhor, até porque, nada melhor do que encontrar amigos em um lugar cheio de outras pessoas para “socializar”, elemento fundamental para nós, seres humanos. Meu objetivo, é, sim, levantar a bola com relação ao impacto que designers podem criar ou devem evitar. É nossa função questionar sistemas de maneira holística, analisando redes de influências, elementos participantes nas diferentes ofertas, ecologias de serviço e com isso tomar as melhores decisões baseado nas necessidades e desejos das pessoas.

Neste contexto, um simples papel junto à embalagem de meu pedido, explicando que minha opção por delivery apesar de gerar lixo não gera tanto impacto ao ambiente assim, pois todo elemento ali é reciclável e que o restaurante possui programa para redução de impacto ambiental, por exemplo já funcionaria. Além disso, se me ensinassem o que fazer com cada tipo de embalagem para reciclá-las evitaria que eu tivesse que pensar em todo esse processo e com certeza me faria sentir um pouco melhor. Também poderia haver um serviço de recolhimento de embalagem, ou até mesmo controle para redução de elementos desnecessários (o sal e o queijo, por exemplo), ajudando em minha jornada de “menos culpa”, quem sabe. Fato é que, ao olharmos para o usuário, e dar um passo para trás para ver o todo, conseguimos criar um mundo melhor!

ps. Aos interessados em Design Management, o Ritz é um bom estudo de caso, bastante concreto. Sugiro uma pesquisa…